Diário do Vilão - Parte 1
O vilão chegou em casa. Sentou-se. Não olhou em volta, procurando por novidades que ele sabia não existirem, como costumava fazer. Apenas sentou-se e ficou encarando o vazio. Depois seu olhar ficou vago e ele parecia organizar os pensamentos. Vez ou outra, ele gesticulava nervosamente, as memórias o atormentando muito. Era uma mania que ele queria perder, o vilão. Quando pensava em algo que o aborrecia, ele deixava transparecer com seus gestos ou expressões. Queria poder guardar seus pensamentos só para si. Queria ele ser como os vilões dos filmes. Ou como os anti-heróis, pelo menos. Não os anti-heróis das comédias. Queria ser como o Humphrey Bogart em Casablanca. Macho, cínico, dono de si. Não que o vilão fosse bicha, pelo contrário. Só que este vilão era meio bocó. Adorava um belo par de pernas, mas em vez de ignorar uma fêmea bonita na rua, ficava seguindo-a com o olhar, abobado, distraído, absorto, entalando o pé em algum buraco, sendo surpreendido pelo meio fio ou caindo mesmo. Este vilão queria ser também como o Bruce Willis, naqueles filmes inomináveis. Engraçado, mas ser rir das próprias piadas. Carismático. Queria ser como o Mickey Rourke em 9 ½ semanas de Amor. Não. Como o Mickey Rourke em Sin City. Ou como o Bruce Willis, em Sin City. Ou como o Clive Owen em Sin City. Um homem moldado pelo sofrimento. Macho, cínico, seguro; um homem que resolvesse seus problemas com os punhos. Sofrera, o nosso vilão, com certeza. Mas seu sofrimento não o tornou duro como aço e frio como granito, não. Tornou-o nervoso e agitado, inseguro e engraçadinho, covarde. Covarde! Como essa palavra doía nos tímpanos de nosso vilão. Covarde. Seu sofrimento fizera com que ele estivesse mais para o Sr. Madruga do que para Marv. Pena.
Escrito por Fabrício Rocha às 12h40
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