Alguém ainda lê meu blog? Estou dando aulas de manhã, à tarde e à noite e, nos finais de semana, estou fazendo licenciatura em outra cidade. Minha cabeça fervilha de idéias, mas o tempo para colocá-las no papel, ou melhor, de digitá-las, é crasso. Pena. Mas hoje decidi colocar um texto que há muito tempo prometi para minha amiga Veridiana e meu amigo Fagner. Esse texto foi mandado para o jornal, mas esqueceram de publicá-lo.
O Dia em que Garça explodiu.
Por Fabrício Rocha
Não se sabe como, mas aconteceu: a terceira guerra mundial. Suspeita-se que uma aliança secreta entre Índia, Rússia, China e Coréia do Norte tenha sido o estopim para a tragédia. Não havia mais Internet para as informações instantâneas. Sabia-se apenas que mísseis russos, os melhores do mundo pelo fato de não serem detectados por radares, foram lançados por meio de submarinos em pontos estratégicos na maior nação do mundo. A Classic Wizard – teia secreta de 1456 hidrofones colocados no fundo do mar em diversos pontos do planeta para monitorar o movimento de navios em qualquer lugar da terra, segundo Dan Brown -, simplesmente não alertara ninguém. O exército Francês, muito estranhamente, foi tido como suspeito de ter fornecido os tais submarinos. A CIA, a ONR e o FBI, como sempre, não levaram à sério as informações que dispunham. Não sobrou muita coisa dos EUA para contar a história. A Casa Branca simplesmente evaporou depois que um artefato nuclear caiu sobre Washington. Os americanos estavam tão obcecados com o Oriente Médio que se esqueceram do resto do mundo. Fontes mais bem-informadas argumentavam – convictas – que os ianques haviam simplesmente se esquecido de vigiar o próprio quintal.
Porém, isso realmente não era importante. Ninguém se preocupava com as causas, mas com as conseqüências. O ataque aos Estados Unidos foi o princípio do fim. O termo “Guerra Mundial” não foi usado fora de contexto. Em todo o planeta, não havia um só quilômetro quadrado que não havia sido tingido por sangue ou banhado por lágrimas. George Orwell nunca imaginaria um futuro tão sombrio. Nem Aldous Huxley. O apocalipse bíblico era história de ninar perto dos horrores presenciados pela humanidade impotente.
Nossa cidade, infelizmente, não era exceção. Não havia sobrado nenhum posto de gasolina em pé. Pronto Socorro e Unidades de Saúde eram escombros, onde ratos verde-fluorescentes se atracavam com baratas geneticamente modificadas devido à radiação. Escolas eram agora albergues comunitários para famílias que tinham perdido tudo. O sistema de água e esgoto não mais existia. As casas onde outrora moravam os mais abastados da cidade supria tal necessidade. A água era retirada sem cerimônia das piscinas que haviam sobrado. Energia elétrica era algo que todos os populares se recordavam com saudosismo. Empresas e salões de clubes eram refúgios de sobreviventes mutilados. Nenhum dos poucos prédios havia restado. O monumento do cafeicultor, do Sarro, havia sumido. A Garça da rotatória, porém, ainda estava lá, serena. Inspirava confiança a todos os sobreviventes.
Talvez esse tenha sido um motivo para nem tudo estar perdido. Como não havia sido designada como ponto estratégico, a Biblioteca ainda estava em pé. Sem TV para assistir, os livros voltaram a ser um dos mais disputados meios de lazer. Voltou-se a pensar. Começou-se a se questionar como Moisés descrevera a própria morte no Pentateuco, por que havia tanta riqueza no vaticano. A população começou a discutir a finitude do ser no café da manhã. Discutiam Dostoievsky na hora que seria a da novela. No campo da fé, a emoção foi aos poucos dando lugar à razão. Saíam de cena Santo Expedito e Santo Antônio e entravam Nietszche e os iluministas. Devido a fatos que não comentarei aqui, alguns também passaram a idolatrar Von Daniken.
Escrito por Fabrício Rocha às 08h13
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Parte 2
O mesmo violão que tocava bossa nova, Gil, Caetano e Chico, também tocava Legião Urbana, Jota Quest, Paralamas, Ramones, Pink Floyd, Led Zeppelin e Black Sabbath. Quem sabia cantar, cantava, quem não sabia, cantava também. No mesmo local onde se ouvia Bob Marley, se ouvia Tonico e Tinoco. Crianças encenavam Shakespeare nas praças que restavam. Os pais não as deixaram encenar Nelson Rodrigues nem Oscar Wilde. O Cabral suspirava e não dizia nada.
Sem computadores, as pessoas voltaram a fazer contas. O MSN, Orkut, Second Life e afins não faziam tanta falta assim. Sem e-mails, as pessoas voltaram a receber cartas. A emoção de ver um envelope amarelado com seu nome escrito era indescritível. O tempo que antes era consumido na frente da tela do PC era gasto de várias outras formas. Ou com recreação, com a família ou com esportes. A vida era mais difícil, porém muito mais saudável. Sem os alimentos industrializados e sem agrotóxicos, a alimentação não era mais motivo de preocupação dos poucos ambientalistas espalhados pelo globo. Quem procurava um bom pretexto para parar de fumar, agora tinha dúzias deles. O primeiro, sem dúvida, era que achar cigarros nos escombros era quase impossível. Como não havia mais combustível, as pessoas tiveram que se acostumar a andar para o trabalho, o que evitou vários infartes e derrames. E o trabalho não era mais algo que deixava a todos ansiosos, estressados ou angustiados. O café, como na crise de 1929, havia sido deixado de lado. A atividade de todos agora era conhecida com o nome genérico de “horta”. Plantações de mandioca, alface e batata eram cuidadas com zelo e respeito. Tentou criar-se animais, mas ninguém se atrevia a comer galinhas peludas, patos de duas cabeças ou bois de quatro chifres.
Não havia mais dinheiro, então todos finalmente passaram a se tratar como iguais. Ninguém trabalhava para ninguém, não havia mais stress; não havia competição, apenas o fato de ter que trabalhar para se manter vivos. Não havia mais classes sociais. Havia solidariedade. As pessoas se sentiam felizes praticando yoga ou entoando mantras. Os outrora arrogantes e desdenhosos suavam juntos com os humildes. Ainda sobre o meio de transporte, cavalos e carroças eram utilizados. Quem precisasse ir até Gália ou Vera Cruz e não dispusesse dos novos-velhos meios de transporte, tinha que se preparar para a viagem, como se estivesse indo para São Paulo.
A fraternidade era a lei, não imposta nem combinada, mas aceita de comum acordo. Regrediu-se para o século XIX. E, acreditem, isso foi considerado sorte: em alguns lugares do mundo, a regressão foi até a Idade Média. Como já foi dito antes, foi dada mais atenção à família. Pessoas passeavam com os filhos no lago. Sem atividades extras para tomar o tempo de todos, as famílias começaram a ficar realmente unidas.
Infelizmente, uma seleção natural ocorreu: os mais fracos e doentes sucumbiram à falta de remédios. Os que ficaram, tornaram-se cada vez mais fortes.
As ruas não tinham mais nomes dos figurões da política. Ostentavam os nomes das primeiras vítimas do ataque: um grupo que se reunia nos últimos domingos de cada mês. Letterio Santoro, Fagner Roberto, Maurício Teck, Faustino Ranieri e Veridiana Sganzela eram algumas dessas novas ruas. Porém, não havia nenhuma rua com o nome do infeliz que tivera a idéia de deixarem de fazer a reunião na biblioteca; esse tosco era o tal do Fabrício Rocha. Francamente, suas idéias eram estranhas.
Estava tudo perfeito. Mas a humanidade nunca está satisfeita. Surgiram Madames Bouvaries, Iagos, Mr. Hydes, Dorians Grays.
Uma menina de treze anos apareceu em estado interessante. Uma horta foi vandalizada na calada da noite. Ferramentas desapareciam misteriosamente. Homens sentiam inveja das hortas dos outros. Crianças queriam ter mais água para o banho que outras. Mulheres se estapeavam por motivos fúteis. As idéias mostravam contradições. Quiseram eleger um líder. Houve conflitos. Houve armações. Assassinatos frios e covardes. Medo e raiva tomaram conta do lugar.
O tempo, mais uma vez, destruiria tudo.
Fabrício Rocha é membro da APEG, professor, tradutor, e está considerando seriamente o conselho de freqüentar um psicólogo.
Escrito por Fabrício Rocha às 08h12
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